O Calabrês e o Martelinho

Artigo de Dorival Martins de Andrade

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No início dos anos cinquenta, quando frequentava o Grupo Escolar Coronel Vaz, na saída das aulas, os alunos eram recepcionados por grupos de vários tipos de ambulantes pelas calçadas ofertando os mais diferentes tipos de guloseimas: amendoim salgado, algodão doce, pirulito, pé-de-moleque, doces variados; o que constituía uma preocupação às mães com a alimentação das crianças.

            Daqueles ambulantes dois disputavam a preferência da meninada: o Antônio Mizzurela (o Calabrês) e o Ettori Corneglian (o Martelinho).

            O “Calabrês” que outrora fora chacareiro no bairro do Mico, com seu carrinho vendia pipoca acondicionada em saquinhos de papel, cuja novidade momentânea era o uso de emblemas dos principais times da Capital estampados nos saquinhos: São Paulo, Palmeiras e Corinthians. A novidade era alardeada por ele a todos os ventos. Com dificuldade de expressar corretamente o nome do “Timão”, ele pronunciava “Curinda”.

            O “Martelinho”, figura de um velhote muito asseado, concentrado em seu carrinho apregoava seus produtos, a canja suíça e pirulitos. Os pirulitos tinham o formato de um guarda-chuva fechado e eram enfiados num tabuleiro de madeira; a canja suíça, um bloco maciço adocicado e consistente, destacado em porções com utilização de uma talhadeira metálica tangida por um pequeno martelo; daí a ser alcunhado de “Martelinho”, atendia pacientemente a meninada afoita. 

            Um certo dia, o “Calabrês” não sei por qual razão passou a desferir fortes ofensas ao “Martelinho”, que resignado diante de seu carrinho limitava-se a responder os ataques do “Calabrês”.

            Em dado momento, o “Calabrês” subestimando a coragem e hombridade do “Martelinho” fez menção em agredi-lo fisicamente.

            De pronto a meninada tomou partido do “Martelinho”, que num ato de defesa empunhou sua talhadeira, abandonou seu posto de trabalho e arrostou o “Calabrês” que recuou no seu intento para o delírio e apupo da meninada.

            O “Calabrês” conhecido como useiro e vezeiro de destempero em público, insatisfeito com sua vida local resolveu abandonar o Brasil e retornar ao convívio de seus patrícios na Itália.

            Vendeu todos seus pertences, e proclamava de “ceca em meca” a afirmativa que na sua terra natal quando tivesse sede ao invés de beber a água de vocês, vou beber vinho!!! E lá foi ele com a esposa Catarina e o filho Roberto para o decantado “Paradiso”. Na Terra Mãe, com certeza, no lugar de sorver o capitoso vinho peninsular, “deu com os burros n’água”.

            Para a surpresa de todos, pouco tempo depois, o “Calabrês” estava de retorno a Jaboticabal, instalando seu carrinho de pipoca defronte o Cine Polytheama. Naquele local, vez ou outra, era ironicamente instigado por alguns circunstantes que provocavam sua ira; bradando em alto e bom tom ele respondia com as mais violentas imprecações.

            Envelhecido e debilitado, o “Calabrês” aqui faleceu amparado pela filantropia de jaboticabalenses a ele mais chegados.

            Quanto ao “Martelinho”, conterrâneo do Calabrês, nascido na província de Rovigo, região do Vêneto, comemorou em Jaboticabal suas bodas de ouro com Stella Colidori e faleceu em 23 de dezembro de 1969, cercado pelo carinho e atenção dos filhos e netos, legando à posteridade por intermédio de seus descendentes respeitável ensaio biográfico.

 

              Nota:-

Dados biográficos de Ettori Corneglian “o Martelinho”

fornecidos pelo seu neto José Batista Cornelian – (Zequinha).

 

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