Evidentemente, mesmo sendo saudosista, não desejo a imutabilidade ao dinamismo do progresso irreversível em qualquer sociedade minimamente desenvolvida; não opto pela estagnação em vez do movimento, inevitável no vivente. Mas, é necessário valorizar o que já foi construído.
Claro está que escolho um veículo de tração motora, moderno, macio, bem vedado com ar condicionado, à falta de conforto dos troles, coches, carruagens que não ofereciam proteção nem ao condutor, nem aos passageiros, tanto pelo desconforto do vento e do pó que aqueles veículos, por falta de tecnologia, ofereciam aos seus usuários. Mesmo os mais sofisticados daqueles veículos de tração animal não puderam resolver essas questões.
A situação é aparentemente inócua. Tentarei apenas examiná-la e, tomara, chegue a algum lugar.
Retomando o termo utilizado na abertura deste texto, lembro que o dicionário define saudosista “como aquele que é partidário do saudosismo”, e saudosismo como o “gosto ou tendência para superestimar o passado”. Daí se pode fazer uma reflexão a partir da “tendência para superestimar o passado”, ou pelo menos não o desprezar; é por isso que os memorialistas defendem tanto a necessidade de preservar o passado. É necessário valorizar o que já foi construído! Preservar não é embalsamar os acontecimentos do passado para permanecermos à mercê deles, mas é um conhecer o passado e compreender sua importância, valorizando-o.
Nós só compreendemos o que se passa ao nosso redor se tivermos consciência do quanto esse passado age em nosso presente.
T. S. Eliot, escritor inglês de origem norte-americana (1888 – 1965), autor de poemas, ensaios, teatro, assim se expressa:
O tempo presente e o tempo passado. Talvez ambos estejam presentes no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado.
Tais versos poderiam ser discutidos em conjunto com o que venho descrevendo. Na verdade, o tema é o mesmo, mas pelas características da linguagem artística, especialmente a liberdade, no momento do uso do seu meio de expressão, certamente o poeta exprime-se de tal maneira que tira as infindáveis implicações que os versos selecionados, podem sugerir: a indiscutível ligação entre os três tempos, de tal maneira que podemos identificá-los uns nos outros. A exemplificação toca exatamente no relacionamento entre presente, passado e futuro.
A linguagem literária tem condições de exprimir, muitas vezes, a explicação que beira à linguagem científica, mas que se aproxima mais da explicação necessária. Isto porque a arte tem condições de exprimir conceitos com a liberdade que os outros níveis de linguagem não podem assumir, por terem compromisso com a verdade. A linguagem literária (vale dizer, a linguagem artística) é livre e, por isso, pode tirar daquilo que exprime, as mais complexas implicações.
Retomando, ainda, o mesmo exemplo apresentado, poderia dizer que desfrutamos do veículo de tração motora, embora saibamos que por trás desse conforto há muita pesquisa e aprimoramento de detalhes. Não se trata de precisar voltar ao tempo passado, mas valorizar o que já foi construído está na base do que desfrutamos no presente, e, por causa disso, é necessário que o respeitemos, compreendamos e reverenciemos tanto as iniciativas do passado como o seu desenvolvimento, assim como o presente que estamos vivendo, sabendo que ele também passará por uma necessária transformação ou evolução.
E desta realidade o ser humano não foge.










