As cidades antigamente eram construídas à revelia, hoje, no entanto, há um planejamento. A arquiteta Francine Lacativa Morgatto explicou para o O Combate como acontece um processo de planejamento urbano bem feito.

Francine Lacativa Morgatto, arquiteta

O Combate: Qual é o principal item que deve ser levado em conta para fazer este planejamento?
Francine: A qualidade de vida no espaço urbano e a necessidade de seus habitantes devem ser as prioridades quando projetamos. Um espaço passa a ter significado quando as pessoas fazem uso dele, então esta é a premissa na construção de um bairro, de uma cidade. Quanto à parte mais técnica, acredito que não se trate de um único item, e sim uma série de considerações que estão interligadas na construção do todo. A que público se destina? Quais as principais características do local em que se pretende implantar o projeto? Quais serão seus usos e como poderíamos trazer melhorias ao local? Como este bairro estará interligado com o restante da cidade? Estas são algumas das perguntas que ajudam a nortear a elaboração de um estudo urbanístico.

O Combate: O que precisa ter em um bairro para que ele tenha as exigências de um urbanismo bem planejado?
Francine: Um ponto importante é a interligação com o seu entorno. Em cidades com cada vez mais problemas viários, é relevante considerar que a acessibilidade é um fator decisivo no planejamento urbano. Um bairro normalmente surge em uma área de expansão de um espaço já consolidado e o novo projeto deve estar integrado a realidade existente, por meio de seu traçado viário, facilitando o fluxo de pessoas que vão morar no novo bairro. Outro ponto é a quem se destina o produto que você vai oferecer e quais as carências e necessidades específicas da área que será urbanizada. É importante considerar também que um bairro não se trata apenas de moradias, e sim de usos e espaços diversificados, que visem suprir as necessidades da população. Definindo estas questões, é possível criar um conceito de projeto que se encaixe a cada realidade. Assim, concebe-se um bairro que satisfaça tanto os futuros moradores, quanto os empreendedores que irão comercializar a área. Portanto, é de grande importância que o desenho urbano seja coerente como um todo – com seu traçado viário, infraestruturas urbanas, espaços públicos de convívio, escolas, hospitais, creches – e como extensão da cidade, trazendo melhorias a ela.

O Combate: Qual é o padrão de loteamento ideal?
Francine: Existe uma lei federal (6766) que rege o parcelamento do solo. Normalmente os parâmetros mínimos tem pequenas variações de acordo com o município, mudando de acordo com o plano diretor, leis de uso/ocupação do solo. Essas leis regulamentam os projetos, determinam as dimensões de ruas, área mínima de lote, dimensão máxima das quadras, porcentagem de áreas verdes, plantio de árvores, sistemas de lazer e áreas institucionais. Mas geralmente dedicamos 20% da área total do loteamento para áreas verdes com projeto de arborização, sendo que dentro dessa porcentagem há uma parcela voltada a sistemas de lazer para a população – como praças por exemplo – e 5% para área institucional, que futuramente pode abrigar algum equipamento urbano feito pela prefeitura (escola, hospital, etc.).

O Combate: Você vê com bons olhos o crescimento imobiliário ou acredita que ainda há muita falta de planejamento? Se há, o que pode ser feito para reverter este quadro?
Francine: Apesar de passarmos por um momento político-econômico difícil, podemos acreditar em um crescimento imobiliário, pois ainda existem muitas cidades com demanda de moradia e o lote é o principal produto para suprir essa necessidade, é o primeiro passo para a construção de uma nova casa. Apesar disso, ainda temos muita lentidão nos processos de aprovação dos loteamentos. Essa demora dificulta a implantação dos projetos e o lançamento do produto final. Uma possibilidade seria aumentar o número de profissionais qualificados para auxiliar na análise dos projetos e sua aprovação, diminuindo o tempo do processo, facilitando o desenvolvimento das cidades.

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