Esperando o mago Merlin
Apesar de todos os medos, escolho a ousadia. Apesar dos ferros, construo a dura liberdade.
Lya Luft
Como é prazeroso cantar e dançar ao som da música Deixa a vida me levar, de Zeca Pagodinho; contudo, será que sentiremos o mesmo prazer, se a tomarmos como princípio de vida?
Deixar-se levar ao sabor do vento, ficar à deriva da vida ou esperar que o mago Merlin nos leve para Avalon -ilha lendária arturiana- famosa pelas suas belas maçãs, é possível?
Vivemos um momento histórico onde nunca se teve tanta liberdade e, paradoxalmente, a passividade se alastra. As pessoas estão cada vez mais dispersas, alienadas e passivas diante dos acontecimentos.
Talvez, por acreditarem não ter algum poder diante dos acontecimentos recentes, escolhem ser gravetos que se deixam levar pelas correntezas das águas turbulentas da atualidade, sofrendo da “Síndrome da bolinha de sinuca” – que espera que o taco lhe dê movimento e direção.
Diariamente, viciados e alimentados por fantasias novelísticas, por acontecimentos políticos vergonhosos, por falsas promessas de felicidade através do consumo desenfreado, ou pelo fanatismo religioso que basta acender a vela para conseguir o desejado, o sujeito moderno segue vivendo cada vez mais incapaz de refletir,sustentar suas ideias e agir de acordo com suas convicções( quando as tem) e, com pouca esperança de que é possível construir um futuro melhor por meio de suas ações.
Assim, muitas vezes, escolhe: ”Vamos deixar como está para ver como fica”.
O ingrediente essencial da esperança, a perseverança, reduz dramaticamente e o medo da responsabilidade cresce cada vez mais.
Affonso Romano de Sant’Anna, ao comentar a literatura de Clarice Lispector, recorda a angústia de Sartre no diálogo de um dos personagens… Mas para que serve isto, a liberdade, se não for para se comprometer?
Enquanto Dostoiévski, em sua obra Os irmãos Karamázov, de 1880, demonstra uma compreensão do sujeito e uma consciencialização da realidade quando escreve:
Nunca foi mais insuportável para o homem e para a sociedade humana do que a liberdade…
E, logo adiante, conclui:
…Os homens desejam pão e circo e não liberdade.
Será que é isso mesmo? Será que esta é a razão verdadeira para os altos níveis de audiência de nossas emissoras de televisão, para os ídolos atuais, e para os valores predominantes?





